A evolução da genômica tem permitido identificar, com cada vez mais precisão, fatores genéticos que impactam diretamente a eficiência produtiva dos rebanhos. Recentemente, a Australian Wagyu Association (AWA) anunciou a identificação de um novo defeito genético em bovinos Wagyu, associado ao gene Annexin A10, com impacto direto na mortalidade embrionária e nas taxas de prenhez.
Essa descoberta representa mais um passo importante na busca por maior eficiência reprodutiva e sustentabilidade genética da raça.
O que é o gene Annexin A10?
O Annexin A10 faz parte de uma família de proteínas envolvidas em processos celulares essenciais, como:
- crescimento e diferenciação celular
- resposta imunológica
- morte celular programada (apoptose)
Estudos científicos indicam que mutações nesse gene estão associadas a falhas no desenvolvimento embrionário, levando à perda de embriões ainda nas fases iniciais da gestação.
Ou seja, trata-se de um defeito que não afeta a aparência do animal adulto, mas impacta diretamente a eficiência reprodutiva do rebanho.
Qual é o impacto prático desse defeito genético?
De acordo com os estudos conduzidos com apoio da AWA:
- Animais portadores de uma cópia da mutação (heterozigotos) são clinicamente normais, mas podem transmitir o gene.
- Embriões que herdam duas cópias da mutação (homozigotos) não sobrevivem, resultando em perdas embrionárias silenciosas.
- Isso pode se traduzir em:
- menores taxas de prenhez
- menor eficiência em programas de TE e FIV
- aumento de repetições de cio sem causa aparente
A estimativa atual é que cerca de 5% a 6% da população Wagyu registrada na Austrália seja portadora da mutação.
Teste genético: uma nova ferramenta para manejo reprodutivo
A AWA anunciou que um teste genético específico para Annexin A10 será incorporado aos painéis de genotipagem, permitindo identificar:
- animais livres
- animais portadores
Com isso, torna-se possível planejar acasalamentos de forma estratégica, evitando o cruzamento entre dois portadores e, consequentemente, prevenindo perdas embrionárias associadas ao defeito.
Importante destacar que o controle desse defeito não exige descarte automático de animais portadores, mas sim gestão inteligente de acasalamentos, preservando genética de alto valor produtivo.
O que isso muda na prática para programas Wagyu?
A identificação do Annexin A10 reforça três pontos fundamentais na pecuária Wagyu moderna:
- Genética de qualidade vai além de marmoreio
Características de carcaça continuam sendo essenciais, mas eficiência reprodutiva é pilar de sustentabilidade econômica.
2. Programas de embriões exigem controle genético refinado
Em sistemas intensivos de TE e FIV, pequenas taxas de perda representam custos elevados. O uso de testes genéticos reduz riscos invisíveis.
3. Transparência genética fortalece a cadeia
Bases de dados genômicos mais completas permitem melhor seleção, maior previsibilidade e mais confiança comercial entre criadores, centrais e compradores de genética.
Contexto e desafio para o Brasil
No Brasil, os programas de melhoramento genético em Wagyu já avançaram de forma consistente na identificação e no controle de algumas doenças e defeitos genéticos conhecidos da raça, por meio de testes de DNA, controle de acasalamentos e maior uso de genômica na seleção dos reprodutores. Diante da identificação internacional do defeito relacionado ao gene Anexina A10, surge agora um novo desafio para as equipes técnicas e para os programas de melhoramento genético nacionais: avaliar a presença dessa mutação na população brasileira, desenvolver protocolos de diagnóstico e, se necessário, incorporar esse novo marcador às estratégias de seleção e acasalamento, garantindo maior eficiência reprodutiva e sustentabilidade genética dos rebanhos no país.
Fontes
1.Australian Wagyu Association (AWA) — Annexin A10: A New Genetic Defect in Wagyu Cattle
https://www.wagyu.org.au/annexin-a10-a-new-genetic-defect-in-wagyu-cattle
2.University of Tennessee – Genomics Centre for the Advancement of Agriculture
Trabalhos do Prof. John Beever em genética bovina e defeitos genéticos reprodutivos (citados pela AWA no AWA Dead Calf Project)
